os momentos despendidos aqui são de reconciliação com a vida

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

esse ainda não é o em homenagem aos 100

não tenho mais escolha
meu corpo manda em mim
o que ele disser eu cumpro
as obsessões que daí provenham
não escondo-as
os exageros característicos
que se explicitem
não os escondo
entrego-me totalmente
e confio, cego, nos ditos
de meu corpo
para minha vida

domingo, 13 de dezembro de 2009

isso é só um depoimento
pra dizer
que
vocês
são
fodas

esse é o centésimo post do nosso blog.
comentem algo sobre isso.

sábado, 12 de dezembro de 2009

a seca é um mar

e chego em casa
e pendular
perduro nas palavras
ninguém pode escrever

sou nave nascida em leito
aquilo que assim
percorre o infinito.

sou pedruschi
que saúda e brada
as falsas distâncias.

josiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaaaaaaaaaassssssssssssss

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

da secura de dias insanos...

...brotou-me um novo poema que se mexe cheio da tão conhecida saudade.
um relâmpago atingiu-me enquanto eu dormia, enchendo-me de algo que me fez voar. sentia que nascia de novo, como se nunca antes tivera nascido. e noutro estado então me encontro. não sou mais sólido, como noutros dias. tampouco sou algum líquido. hum, se o fosse, seria alcoólico. sou algo de etéreo. como o vento, mas não tanto. queimo como o fogo, mas não faço arder. não causo bolhas. não faço estrondos exatamente audíveis,embora o que causo, diga-se de passagem, compara-se à certos efeitos pirotécnicos. li numa vez, de madrugada, num livro... chamavam: EXPLOSÃO!.

Algo sob a chuva

Já faz um tempo
que não choro
e tampouco escrevo
um bom poema
(daqueles que faz
o mundo parar
para depois girar
mais leve)

Queria que fosse
meu o pranto
que hoje molha
a cidade,
e minhas
as mãos que
tocam o piano
da sétima música
do álbum.

Noutra espécie
de blues ou jazz,
minhas são apenas
as mãos sozinhas

que vão desenhando
em vermelho
no caderno
algo sobre a chuva.

E então
algo sob a chuva
em mim
dança
por entre as
luzes e sombras
de minha casa.

Poema para a aranha que tomou uma sentada

Não te sintas triste,
pequena.
Não estás mais sozinha.
Até mesmo eu,
medroso de aranhas,
sentei-me ao teu lado.
(Se não estivesses achatada,
eu não sentaria).

Não te sintas triste,
pequena.
as pessoas sentam,
e foi a hora de alguém
sentar em você.

Agora já te podes sorrir,
tranquila em tuas teias
celestes,
com teus oito olhos
a fitar o infinito.

Agora já sabes
(e graças à ti,
também eu o sei)
o quanto morrer
pode ser bonito.
Gostaria de saber
palavras de latim
para rebuscar
o que eu sinto.
Mas não sei.

Me carecem palavras
de todas as línguas,
e apelo para o
verso,
este bicho que não
fala,
apenas olha para
quem, do outro
lado da página
escuta o que vê.

Não há
vocabulário
neste universo.

O que há
são
um caramanchão de cerejeiras
e o espaço entre ele e nós.

Existir acontece:
Basta respirar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

não deu pra passar sem postar - 2

"... minha terra tem palmares
onde zumbi foi eleito
os nêgos que lá quilombaram
sambavam do mesmo jeito..."

não deu para passar sem postar - hahaha

"...você é pra mim o meu amor
crescendo como mato em campos vastos..."

para inaugurar o mês de dezembro

em casa
ouvindo lenine
depois de bastante tempo.

fui tomar banho
e um mundo de palavras
saiu pelo chuveiro.

me lavei nas palavras instáveis
que cortaram minha carne
expondo o sangue contaminado;
minha vida em eterno delay.

aquela mancha suja
dias vividos
certezas incertas
incertezas certas
um mar de vidas eis aqui
percorreu todo o esgoto
e fez questão de colaborar
com a enchente que encheu toda a cidade
e não me deixou sair de casa.

um homem morreu afogado.
um bebê na UTI retirando líquido dos pulmões.
ninguém faz idéia de quem vem lá.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Bora?

CG  (SP) – ASSIS – CURITIBA – PORTO ALEGRE – MONTEVIDÉU – (IDA E VOLTA) + 300 KM = 5632 KM

FUSCA + OU - = 10 KM/LITRO
TANQUE FUSCA = 40 LITROS = 400 KM

1500 PILA DE GASOSA/4= 375 PILAS PRA CADA

PRA VIAJAR LEGAL= UNS 700 PILAS CADA?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Uma frase

"É temerário cavar abismos nos afetos humanos; não que eles se aprofundem ou escancarem - mas voltam a fechar-se com enorme rapidez!" 


Nathaniel Hawthorne, no conto Wakefield.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

trechinho de poema do leminski pro aniversário do Pepo.

(*)Ler trevas. Nas letras, ler tudo que de ler não te atrevas. Ler mais. Ler além. Além do bem. Além do mal. Além do além. Horas extras e etecéteras, adeus, amém. Busquem outros a velocidade da luz. Eu busco a velocidade da treva.










Trechinho mesmo, localizado no final do poema "R", no livro LA VIE EN CLOSE, de Paulo Leminski.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

na escuridão eterna

o povo estremece

meu pulso se aquece

enquanto a cidade

parece

caverna

confissão de uma saudade

apagão em são paulo


possibilidade pra todo lado

tudo que eu queria

era estar acompanhado

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

apagão

sem luz o instinto grita
aos ninhos os animais retornam
raros são aqueles que saem em busca
do mistério e do silêncio
que a luz oculta

bicho voraz e incompreendido
é esse que em mim habita;
meu corpo busca
nas intempéries imprevisíveis
palavras que revelem sentidos incompreensíveis:
a noite do blackout
se assemelha à treva de meu existir

além da solidão
outro presente nos dá o apagão

o silêncio

bandos de pessoas com medo
cruzam, atravessam meu poema
e sozinho, sem desviar os olhos do papel,
mais os atormento que encanto.

menos luz!
quero menos luz!

caminhar no escuro é uma dádiva
melhor metáfora
fecho os olhos e corro pelas campinas de pedra
me entrego ao tempo mais primata e animalesco
e agora vejo: sou poeta.

sinto o frio da noite infinda
e não tiro a caneta do papel que não vejo
e não me visto, a nudez é parte do ritual

Sinto

Fluo

estou junto com todo o universo
uma galáxia explode
um empresário chora sua desgraça
em casa avós rezam para seus deuses
os ladrões estão à solta
carros explodem uns nos outros
um velho decrépito procura sua dentadura
um bebê japonês em gritos porque o video game não funciona
o último capítulo da novela interrompido
o último capítulo do clássico será lido à luz de velas
no puteiro um porco não encontra a camisinha
o casal tem o maior orgasmo de sua vida
um garoto de 13 anos se atira torre abaixo
uns se refugiam com geradores
outros se embriagam
e eu
na esquina mais absurda de minha vida
escrevo um poema
sem porquê
sem nada
um simples poema sem luz.

domingo, 8 de novembro de 2009

é doce escrever no blog.

espaço inconcluso
inverso revertério de sons
desmaterialidades.

aqui nosso sopro é de eternidades.

sábado, 7 de novembro de 2009

poema para meus 22 anos de idade

no tanto que se foi
ou se desfez
carrego um pouco
pouco muito
deste espaço inútil
pra viver o que não vivi.
Esbranqueio as páginas
e me deixo fazer quadro:
sem expectativa ou desejo
te proclamo artista de mim;
dentre tudo
tudo espero e deito
nada espero e aceito
os distúrbios do em fim.
Já não escrevo como outrora
tinta papel e feito
um pássaro me deu asas
e eu, mesmo sem jeito,
voei.
Alçado no largo lar de meu peito
o vôo:
compreendo quase tão somente
rastros alheios
comprometidos ou descomprometidos
eu existo nos teus gestos
e gosto mesmo é das cores
e dos ventos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

do filme: o demônio das onze horas - godard

Ela foi reencontrada!
O quê? -A eternidade.
É o mar misturado
ao sol.
-Rimbaud

sábado, 24 de outubro de 2009

fluência onírica

no meio do meu almoço
comecei a amarrar
um grão de arroz no outro
com um barbante

ao final joguei tudo
pela janela
e aquele negócio
virou um pássaro
branco
lindo
que voou pelo céu
da cidade
fechou um boeing
que o xingou
e foi ao mercado municipal
comprar frutas fresquinhas
que ele trouxe
pra eu comer depois
do almoço.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

outra resposta à MEMÓRIAS

Se for sincero comigo mesmo tenho que reconhecer que minha memória é um tanto quanto falha, talvez seletiva. Pouco lembro de minha infância, assisto todos que contam detalhes, feitos infantis e fico maravilhado com essa possibilidade de reconhecer essa base formativa do pensamento, da personalidade que a mim se mantém guardada em segredo. E, para falar a verdade, não tenho intenção de descobrir nada, "as coisas que aconteçam a seu gosto, em meu desgosto hei de fronteá-las".
Contudo sei claramente o momento em que me tornei um ser desses que necessita da escrita para sobreviver no mundo, sei o espaço e as pessoas envolvidas. Este espaço chama-se colégio, no meio das afrontas, dos descobrimentos, das indignações, dos grandes mestres que sutilmente modificaram o rumo de tudo na minha vida, das amizades, dos desafios de construir algo diferente, pois sempre fui perturbado pelas possibilidades do mundo, e dos amores.
Ah, os amores...
Já disseram, acho que Maria Quintana (arrisquei, não me lembro direito), "todos os poemas são de amor". Não sei, mas que as mulheres são culpadas por quase tudo que escrevi se forem estabelecidas relações aparentemente absurdas e distantes, mas que são verdade, são.
E eu gosto disso. Sinto-me como um cavaleiro, pessoa principal, de valor e que valoriza, principalmente. Um trecho de Dom Quixote: "tirar a um cavaleiro andante a sua dama é tirar-lhe os olhos com que vê e o sol com que se alumia e o alimento com que se sustenta. Muitas vezes o tenho dito, e agora torno-o a dizer, que um cavaleiro andante sem dama é como a árvore sem folhas, o edifício sem cimento e a sombra sem copo que a produza."
Na alegria e no sofrimento sou parceiro quase incansável da poesia, meu único inimigo se chama desânimo. Escrevo para tomar conhecimento e consciência de tudo, bem como para esquecer e destruir tudo que se estrutura.
Atualmente o blog tem sido ótima ferramenta... ele me dá ânimo de escrever, de mostrar para vocês o que escrevo.
Por enquanto é só, pedruschi pedro bruschi.

Sobre a escrita

escrever não escrevo
é consequência de algo que me atino
algo que mora no peito agitado
que é saber que estou vivo

escrever me escrevo
desde sempre com orgulho
todavia reconheçoum instante claro
momento indubtavelmente raro
em que meu pulso desobriu o ensejo poético

desde então infinitamente corro
volteio o mundo
morro morro morro
e aquilo indelével em mim procuro
através do corpo em que me perco

em mim não existo
parafraseando thiago de mello
só sou quando em verso

e talvez mesmo o inverso
de não ser e saber nada com este falatório
mesmo que néscio
perpetuo indizíveis brados
que percorrem tua alma no silêncio
sou eterno.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Como nossos pais

Ainda há pouco fiquei indignado ao ouvir na rádio uma inusitada sequência de músicas: primeiro tocou uma versão ao vivo da Elis Regina cantando "Como Nossos Pais", e depois rolou um Natiruts das antigas (Beija-Flôô, que trouxe meu amôô, vuô e foi emboraa). Pensei: "Porra, qual é o critério dessa merda de rádio?" (mesmo sabendo que o critério da rádio é tocar QUALQUER música que seja cantada em português do Brasil).

Seguindo a reflexão proposta pela letra da música, percebi como parte dessa minha indignação vêm de um saudosismo meio totalitário ("nossos ídolos ainda são os mesmos" (...) "você diz que depois deles não apareceu mais ninguém"), que quer fechar os olhos para um mundo que é extremamente dinâmico e uma vida totalmente diferente daquela de 30, 40 anos atrás. A outra parte da indignação é, claro, a necessidade de sentir que existe algum critério mais ativo na programação da rádio, coisa que às vezes faz com que eu me sinta um ouvinte absolutamente passivo e sem vontades. Me pego ouvindo músicas que eu realmente desgosto. No caso supracitado, simplesmente mudei de rádio e dei sorte de pegar um Ed Motta na outra. Além de tudo, é claro que o fato de estar tocando Natiruts (com todo o respeito à banda e a quem gosta) não ajudou.

O mundo é outro, a vida é outra, a arte é outra. "Mas é você que ama o passado e que não vê/Que o novo sempre vem" brada Elis Regina. É claro que a veemência da letra se coloca diante de uma situação de completa estagnação e cego saudosismo. O passado não é assim todo tão ruim. Mas não fechemos os olhos para o presente. A arte está em plena efervescência, de maneira mais ou menos crítica, como sempre foi, mas sempre se revolucionando em termos de linguagem e na maneira como vê o mundo. A filosofia, ciências humanas e sociais também não cessaram nos clássicos.

Evidentemente que, diante das últimas revoluções tecnológicas, hoje é muito mais fácil se perder no oceano de informações desencontradas e das produções sem a menor preocupação com a qualidade. Qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa, inclusive escrever um texto supostamente reflexivo como este, cujo autor não tem nenhum histórico de produção deste tipo de texto e sequer um diploma na área de jornalismo. Qualquer um pode fazer uma banda, dizer que é músico, que é poeta, que é pintor, tem pra todos os gostos. Acho ótima essa democratização, essa desburocratização da arte e da comunicação em geral (apesar de reconhecer que há algo extremamente pernicioso nisso tudo). Acho bom também que as pessoas se sintam bem fazendo algo que lhes faça bem, mesmo que elas não façam esse algo tão bem.

Mas vamos separar uma coisa da outra: no meio de tanta produção, qual é a que se preocupa com a linguagem e com a estética? Qual é a que realmente se preocupa em estimular a reflexão sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos cerca? E finalmente, qual é a que procura dialogar conosco sem subestimar a nossa inteligência? Existem critérios objetivos e fáceis de se enxergar para que possamos selecionar ativamente aquilo que escolheremos para ouvir, para ler, para apreciar, para assistir.

Deixo o link da letra do Belchior para terminar o ensejo reflexivo:



domingo, 18 de outubro de 2009

Memórias

Uma proposta para movimentar o blog, e principalmente a mim mesmo (hehehe): vocês lembram como foram os seus primeiros passos no campo das belas-letras? As primeiras coisas que escreveram para outras pessoas lerem? Não precisam ser exatamente as primeiras coisas, mas aquelas que constituem marcos, que vocês lembram com carinho e se orgulham, de certo modo. Um recorte seletivo das nossas primeiras memórias literárias produtivas! Lembrando sempre que pode vir em forma de prosa, poesia, ou o que quer que seja. Aqui vai o meu texto:

Hum, a primeira coisa que me lembro (seletivamente, hahaha) de ter escrito foi uma carta, na quarta série, juntamente com o meu amigo Lucas - que mais tarde viria a se tornar Peska -, endereçada ao então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso. Nada pretensiosa, a carta começava com “Excelentíssimo Senhor Presidente da República”, reivindicava o fim do preconceito e levava em anexo um significativo abaixo-assinado com as assinaturas de alguns alunos do Colégio São Domingos (o que, para efeito de reivindicação, deveria representar 0,0000000000000000000000000000000000000001% da população nacional).

Depois disso, me lembro dos problemas de matemática da quinta série. A professora Estér, que não deixava ninguém usar boné na aula dela, mandava a gente elaborar uns problemas na aula ou de lição de casa para testar a nossa capacidade lógica. Eu e o Henrique inventamos um personagem que sempre aparecia nos nossos problemas: o Clodoaldo. O Clodoaldo era um matador de aluguel, que na verdade tava mais pra um assassino de massas do que para um serial-killer ou algo do tipo. Os problemas era mais ou menos assim:

“Clodoaldo mata 6000 pessoas por dia. Em um mês, quantas pessoas Clodoaldo terá matado?”.
Hahaha, o cara era um absurdo.

Ainda na quinta série, teve um concurso de poesias no colégio, acho que foi o primeiro evento LER (para quem não sabe/lembra, Leitura Emoção Rara. Óbvio que inventaram a sigla antes de darem significado à ela) que teve. O LER era um evento que aconteceu em quase todos os anos que eu estudei no São Domingos. Era um sábado, em que haviam vários acontecimentos literários: venda de livros, saraus e, é claro, concurso de poesia.

Se eu não me engano participei de todos os LERs que rolaram enquanto estava no Colégio. Ou escrevendo, ou declamando. Os meus primeiros flertes com poesia estão diretamente relacionados com esses eventos. E a primeira poesia que eu escrevi na minha vida foi uma chamada “A viola”, na quinta série. Era aquela poesia de quem já viu, mas nunca escreveu uma poesia. Tentava ser uma coisa bem adulta, bem rimadinha, mas lendo hoje, fica visível que foi uma criança que escreveu. Racho o bico de lembrar quando uma professora me tirou da aula (de matemática, acho) para me perguntar se havia sido eu mesmo que tinha escrito o poema. Hahaha!

“A viola” ganhou um prêmio de melhor poesia de não sei o quê. Da quinta A, ou da quinta série. O que me fez achar que, se eu continuasse escrevendo uma poesia por ano (a cada evento), poderia virar poeta. Passei um ano inteirinho ser escrever outra poesia e escrevi “Elefante” na véspera de outro evento LER. E ganhei de novo! Na sétima série o esquema não deu mais certo, e eu perdi. Isso me fez desistir de escrever poesia, e eu passei a declamar. Mas que mal perdedor, né?

Paralelamente a isso, escrevia textos em prosa para as aulas de português. Sozinho mesmo, ou em dupla com o Deco (“As aventuras de Akiko” e “Karabashi, o esquimó do Saara”). E continuei assim, gostando bastante de ler e de escrever, mas só lendo e escrevendo quando era obrigado.

Essa relação com a literatura se prolongou pelo resto do colégio, com algumas exceções muito pontuais, como a Roda Literária. A mudança aconteceu, e ainda está acontecendo, nos últimos anos com a minha mudança para Campo Grande. Mas isso é assunto para uma próxima vez, pois acho que extrapolaria o tema proposto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

poema de parabéns para o jony

O OLHAR - Manoel de Barros


Ele era um andarilho.
Ele tinha um olhar cheio de sol
de águas
de árvores
de aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava sua vida.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

neste mês de recorde de postagens, uma homenagem aos camaradas blogueiros (e a tantas outras pessoas escondidas nos mais longínquos cantos da memória)

A BASE DE TODA METAFÍSICA

E agora, cavalheiros, eu lhes deixo
uma palavra
para ficar nas mentes de vocês
e nas suas memórias
como princípio e também como fim
de toda metafísica.

(Tal qual o professor aos estudantes
ao encerrar o seu curso repleto.)

Tendo estudado antigos e modernos,
sistemas dos gregos e dos germânicos,
tendo estudado e situado Kant,
Fichte, Schelling e hegel,
situado a doutrina de Platão,
e Sócrates superior a Platão,
e outros ainda superiores a Sócrates
buscando pesquisar e situar,
tendo estudado bastante o divino Cristo,
eu vejo hoje reminiscências daqueles
sistemas grego e germânico,
deparo todas as filosofias,
templos e dogmas cristãos encontro,
e mesmo sem chegar a Sócrates eu vejo
com absoluta clareza,
e sem chegar até o divino Cristo,
eu vejo
o puro amor do homem por seu camarada,
a atração de um amigo pelo amigo,
de uma mulher pelo marido e vice-versa
quando bem conjugados,
de filhos pelos pais, de uma cidade
por outra, de uma terra
por outra.

Walt Whitman - Folhas das folhas de relva

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

fogo

canções de noite invadem meu poema.

a casa é instável e apesar da ventania não desaba.

a casa é instável e apesar da ventania não desaba.

sábado, 26 de setembro de 2009

noite

canções de fogo invadem minha casa.

o ar é instável, ele entra no peito, mas não preenche.

o ar é instável, ele entra no peito, mas não preenche.


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

a televisão avisa que todos já foram dormir
e eu estou quase
boa noite tchau obrigada e nossa
vou ao café que esta minha cozinha aguarda pra mim
faço de noite vou fazendo em várias
partes cumplicitárias
a televisão e esse programa avesso mas
vem palavras dele e eu me inundo da noite
as crias já deitaram dormiram não chegou uma
eu aqui eu por ti eu parti
fui ao circo com as menininhas vox e ri inundei-me
um calor combalente
uma noite rápida e de novo ainda nao fui mas vou
agora sim
vou ao café
e queridos
escrevo porque me seduz
hoje estou de um
que nem ontem em tarde nem cesário ota
me vem o sono falta o trampo que olha da mesa
falta paul auster e eu quero hoje ele na cama comigo
hehehe
como quero boa noite tchau e obrigada

O homem, as viagens

O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
palnta bandeirola na lua
Expeimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.

Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto - que é isto?
Idem
Idem
Idem.

O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiã junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Nõ-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.

pôe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.


-Carlos Drummond de Andrade, em "As impurezas do branco"

terça-feira, 15 de setembro de 2009

por diversão

uma música interessante (gostosa eu diria num linguajar mais sedutor)
um banho gostoso (interessante eu diria se mais sedutor)
mas aqui não há sedução, haveria de haver, mas por hora, o que há é tão somente ser.
onde estão as palavras que não são minhas, que escapam à minha pena?
venham, venham! eu vo-las espero! (e isso cria em mim nadas além de saudades)
tudo pode ser substituido por semelhança, mas... e quando não há?
pois tudo está em nós e por vezes temos essa mania de unidade e originalidade...
EU! (gritou uma voz não tão distante e que fez-me rir)
logo eu... fazer o quê? (foda-se que não se acentua mais o o quê...)
há a certeza de que as palavras não se envergonhariam à escrita,
mas me acanha esse estado de estar só acompanhado
(não que isso seja pouco ou muito... não acredito em valor)
de auto acompanhações mútuas que sempre são...
fora isso sempre sobra um gosto de ritual inerente à toda manifestação que envolve essa parada louca que é a poesia e a experiência vivida a falsas distâncias. aqui ou acolá sempre sobra um gosto de nós, isso acalanta e agrada, porque assegura de forma estranha e incerta algo em que também não acredito: eu. ou você, ou a madre teresa de calcutá (não faço a menor idéia de quem seja ela, mas achei engraçado submete-la a esta situação)
agrupo palavras e silabas como se as tivesse numa saca todas recortadas, meu nome é dadádadá, e então não calo, porque esse impulso de teclar no teclado gera sempre força.
não tenha paciência para ler o que escrevo, nada vale seu precioso tempo, vá buscar dinheiro, encha seu ânus de dinheiro e espere que um dia teus filhos tenham alguma oportunidade de fazer algo menos besta que encher o cú de grana (tendo sempre a certeza de que nada há de faltar a eles).
isso não foi um insulto.
te amo,
pedruschi.

poema salva-vidas

quando a noite nasce em um peito cantante
nada pode restar senão o anseio, o devir.
quando um gosto de sol se insiste na noite,
o porvir cheio de calor grava em si o que é.
quando um poeta aterrisa em seu território
e grita em tom baixo tudo aquilo que desconhece,
o nascer de estrelar em horários incertos.
quando um seio de mulher se arrebita,
alva e límpida, nossas palavras vão por água...
abaixo.
porque aqui, neste território, elas já deram por existir.
no entanto, quando os lobos uivam em nossas pernas,
não temos calcanhares de aquiles, somos uma unidade,
voamos por entre as possibilidades e já não distinguimos:
tudo é puro prazer.
eu sou, prazer.
tu és, prazer.
ele é, prazer.
nós somos, prazer.
vós sois, prazer.
eles são, prazer.
então se revela no impulso não contido
os mistérios vastos que linguista nenhum poderia desvendar...
o poder do improviso noturno, do caos compartilhado,
do movimento que não sabe onde tem nascimento:
as nascentes somos escondidas dentre tantas infindezas,
e assim eu sou prazer,
tu és prazer,
ele é prazer,
nós somos prazer,
vós sois prazer,
eles são prazer,
então o gozo que nas palavras não se esconde
e que na conquista de olhares se evidencia
sem no entanto garantir que se concretize,
aqui brilha e proclama que o ser, no mundo, no cotidiano,
no instante, mesmo sem controle,
tem tesão.
graças ao momento, tudo é incerto,
tudo é caos e, mesmo sem saber do melhor,
da vida, da entrega, do jogar de toalhas, da desistência,
do desapego, do desespero, da inconsciência,
da inconstância, rogo-lhes tão somente algo:
façamos das formas mais bizarras.

Trampolim Atômico

"Trampolim Atômico"

Transpulando no meu trampolim
atômico,
trespasso a nuvem que
me escondia lá em baixo,
transpiro nadando no ar
transparente,
chego atrasado mas cá estou
finalmente para
transar com as estrelas.

Prá segurar na mão distraída
de Deus,
falta pouco.

Novo Canto

Descobri um novo canto
de minha casa.

E a escrita, sempre esquisita,
é uma forma minha
de NÃO ficar sozinho.

Estou com as letras,
com as palavras,
com o movimento.

Comigo:
poesia,
som,
meu pensamento.

Um encontro,
um compromisso comigo
em que eu compareço.

Um instante
do mundo,
e eu aconteço.



Este é um poema dedicado aos meus amigos.
Quem sabe, sabe.
dizer muito obrigado é pouco.
pensei em dizer em japonês,
por me ser uma coisa nova,
intrigante e importante,
mas sei que é pouco.

pois bem, aqui vai um poema
de Mário Quintana.

"Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado."

Muito Obrigado.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

hoje meu canto no blog é por compromisso

Esta noite
certa embriaguez alheia
invadiu meus territórios.
Vinda por mensagens estranhas,
menos belas que sinais de fumaça,
encheu-me o peito (sempre enche)
de uma alegria escondida,
dessas que não se explicam,
vindouras de tempos outros,
vividas em tempos que insistem, sempre,
a permanecer presentes:
essa minha mania de querer ser eu.
No fim, o que importa é o jogo,
e o nosso permuta entre o gesto, a exploração e as regras,
sem nunca deixar de ser, ainda bem, sensação e corpo.
Corri durante a madrugada à procura (de mim?talvez)
de versos que escancarassem
nessa minha face suja de imcompreensividades
algo que reconhecesse e aceitasse meu convite:
venham palavras, eu as estou esperando, aqui,
só, sem direção, sem prumo, eu e meu cajado,
meu pensamento, meus desvãos, meus precipícios.
Acabei enredando por caminhos partilhados:
eis para vocês um versinho de thiago de mello.
Aqui deixo atestado meu certificado de embriaguez mútua:
hoje não vivi vinho, contudo sempre nos restam caminhos...
poesia ou virtude... ei-nos.

Rumo

"Somente sou quando em verso.

Minhas faces mais diversas
são labirintos antigos
que me confundem e perdem.

Meu pensamento perfura
muros de nada, à procura
do que não fui nem serei.

Ante a carne fêmea e branca
meu corpo se recompõe
ofertando o que não sou.

Meu caminhar e meus gestos
mal e apenas anunciam
minha ainda permanência.

Para chegar até onde
não me presumo, mas sou,
sigo em forma de palavra."

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe... Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto...
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma."

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Valor

A totalidade é essencial
à satisfação.

Àquilo que atribuís valor
atribua a certeza da complementariade
com a totalidade da diversidade.

Tudo são quebra-cabeças,
milhões de peças.

Cada qual terá o melhor
dentro daquilo que deseja.

A conquista dos prazeres,
compartilhados,
é sinonimo de....................... .

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Também de improviso

cheiro-verde
plantado colhido
picado
deixa na mão
cheiro-verde.

o nome
sinestésico
faz pensar se
veio antes a cor
ou o cheiro.

pouca diferença
faz.

raras são as
coisas
no mundo
tão idôneas
quanto
cheiro-verde.

domingo, 6 de setembro de 2009

improviso antes de dormir

a pipa pousada


asdrúbal tinha ido brincar com os meninos do bairro
e descobriu que todos não eram eles mais.

as pipas pisadas no chão eram motivo de riso e alegria
mas o garoto não se conformava com pipa perto do chão.

o gôsto estava no gesto, o pouso que a pipa partida
fazia
depois do corte vitorioso.
vento que gira não manda sozinho, alguém tem que ter
na ponta do fio, pra dizer que vai ou não vai
pra cima ou pra trás.

sempre alguém tem que ter
a mais
pra que quem se sabe aqui com a pipa a seus pés
se saiba que pode
voar sem stress
no mar da linguagem, na vida ou na imagem.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

reflexão sobre educação (e tantas outras coisas que me atormentam)

certa hora parei a reflexão e considerei que não poderia ser educador
pois como prerrogativa o educador deveria em si
ter plena felicidade.
no entanto, percebi que por ter compreendido,
mesmo não a tendo, sou capaz e por isso tenho
outras ótimas possibilidades.
mas acabo por achar que preferiria simples felicidade, contudo
não consigo vislumbrar um único feixe de luz
que ajude-me, na névoa caótica
de minha cabeça,
descobrir um nada de felicidade.
não posso estabelecer conexões entre as coisas
e tudo está ligado a tudo.
essa bruma me cega, e nada distinguo.
paisagens, pensamentos, figuras, posturas, objetos, pessoas, cores, sentires, fazeres,
nada é em si, tudo é sombra e não vejo fronteiras
entre bem e mal;
entre sim e não.
não acredito em nada pois nada é:
e penso sobre minhas palavras
e elas tampouco são...
estou grávido do caos
nasce em mim compulsivamente tudo que se anula
e já não sei conceber vida ou morte;
não sei conceber o real e o irreal:
os prazeres morrem logo após o parto.
esqueci-me da existência
e nada sei de absolutamente nada,
tudo é só mente,
mentira.
"O melhor será escolher o caminho de galta, percorrê-lo de novo (inventá-lo à medida que o percorro) e sem perceber, quase insensivelmente, ir até o fim - sem me preocupar em saber o que quer dizer 'ir até o fim', nem o que eu quis dizer ao escrever essa frase. Quando caminhava pela vereda de Galta, já longe da estrada, passada a região das bânias e dos charcos de águas paradas, e ultrapassando o Pórtico em ruínas, entrando na pequena praça de casas desmoronadas, precisamente no começo da minha longa caminhada, não sabia aonde ia nem me preocupava em sabê-lo. Não me fazia perguntas: caminhava, apenas caminhava sem rumo certo. Ia ao encontro... ao encontro de quê? Até então não sabia e nem o sei agora. Talvez por isso escrevi 'ir até o fim': para sabê-lo, para saber o que há atrás do fim. Uma armadilha verbal: depois do fim não há nada, pois, se algo houvesse, o fim não seria fim. E no entanto, sempre caminhamos ao encontro de..."

sábado, 29 de agosto de 2009

miniconto sem título 2

Tenho andado muito deitado ultimamente.
Apesar de meus ouvidos sorrirem ao som da chuva, e de minha pele se apaixonar pelo acalento das cobertas mornas, certas consciências que inda não calam a boca não me deixam em paz.
Me pergunto se não é depressão preferir a cama ao convívio social.
E no entanto anseio por músicas e danças, gente pelada e cantoria, exposição e entrega.
Serei eu mesmo este ser que se deprime dançando em sua cama ao som da chuva?
Se bem que são todos eu (como li certa vez num livro com um macaco na capa). E eu sou nenhum.
A chuva aumenta o volume, o coração aumenta o volume, a mão aumenta o volume da escrita: ganhei algumas palavras de presente.
Certas ousadias brincam com o pensamento. Fazendo-o arma, sagrado veneno.
Quando meu pensamento piscina e a chuva enche, saio da cama para nadar.
trens, trovões e gongos.
à minha procura, devo dizer.
ribombam em mim como a chuva.
meu telhado não mais se
esconde, tampouco me esconde
das gotas.
telhas de barro deixam o som
entrar, mas não sair.
som e eu dançamos.
eu sou um tambor ancestral.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

leminski

PRA QUE CARA FEIA?
NA VIDA
NINGUÉM PAGA MEIA.

leminski

não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino

leminski

moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

versinho que o fran me ensinou

Bebo
não é por vício
não é por nada
Bebo
pois no fundo desse copo
encontro o retrato da mulher amada
E se não bebo até a última gôta
a desgramada morre afogada.

para não perder o costume (dos escritos madrugadores)

pois eis-me aqui, nu.

já o tempo é, antes de tudo, por si.

carrego algo que não sou possível de conceber.

talvez você esteja certa: eu realmente não tenho controle sobre o que falo.

poeticamente, descubro vãos que nascem em meu coração.

e se já não sou nada além de mim, me resta ser tudo.

essa minha eterna prepotência de nada se diferencia da sua.

porque nós somos o mesmo, só por prazer.

por tesão.

pois desconhecemos o mundo, e o mundo em nós,

ao menor ensejo único, descobrimos.

prazer, eis-me diligência.

já soube sair de mim, só para amar.

mas confunde-me algo:

as fronteiras entre amor e prazer.

e eu já anuncio minhas certezas.

a todo mundo,
e ao blog.

eis-me, certo, acontecido:
eis-me,
só me falta que me vejas.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

caí no mundo como um engano.
um anjo muito burro,
atrapalhado em suas tarefas celestiais,
deixou-me (eu, essa metade de errante esperança)
cair em um pedaço de carne ( hoje esse meu corpo, pela metade)
sem pertenença alguma.

assim despertei-nos a brincar de realidade.

sendo cada um qual de si
escapava à razão a sapiência
de todos os fragmentos que compunham a existência.
Nenhum Visconde Medardo, nenhum canhão único e maniqueísta:
cada um continha em si incontáveis canhões
cada partícula despedaçada,
porém compondo.

Todos derretidos,
vinham sempre, todo todos uns aos outros.
Contudo, o "sermos juntos"
sempre esbarrava num detalhe:
o ser se sê, se sem amento
que tudo tudo
cada qual
seu meio-a-meio.

domingo, 9 de agosto de 2009

das novas postagens

yes.

as direções dos rumos
surpreendem.

a vida,
em seu limite,
surpreende.

o que é o limite
da vida?

a morte?

ou a embriaguez?

agora acho
que ambos.

e então
yes.

no limite da vida,
escrevo um poema
para meus amigos

pois morro
a cada segundo
que vivo

[e estou bêbado, quem diria!

e sendo assim
sou franco:

às vezes viver a poesia
é difícil prá caralho.

mas a gente,
de vez em quando,
equece e tenta.

sem medo de não ser gostado.

ouve o som do ritomo
do coração
e da lua.

e ouve o som
da letra
tecida.

seja virtual,
seja de papel.

é vida.
é o que vale
a pena.

e por ela
embriaguemo-nos.

até amanhã.

[com orgulho da ressaca.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

no albergue

onde vão todos
que, juntos, parecem distanciar-se da luz?
Encerrram-se e padecem
no sabor des-saboroso
de forjar presenças,
o que esconde em desvãos pessoais
a verdadeira distância
que se forja
entre a unidade e a unidade.
Tenho somente o que meu corpo é capaz de carregar;
o que meu pouco dinheiro deseja comprar;
u;m livro com a mente de outrém
(que é inevitavelmente eu);
algo para poder musicar;
um caderno para registro
e uma câmera fotográfica que logo logo perderá o porquê,
pois tenho a formosa certeza
- e regozijo-me com a honra humilde-
de que tudo que importa
é ter olhos e ouvidos atentos
para o que der e vier
entre eu e eu mesmo,
ou em outras palavras,
entre eu e o todo.
E não titubeie em dúvidas: isto indubitavelmente te inclui.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

da forma

em ti sentiste alguma vez
a frágil propensão
que não se compensa, mas compreende
na ausência de forma?

Cabe a mim uma curiosidade:
qual angústia carregas em teu peito?
Eu que em mim nasço e cresço impulso,
já não distinguo as incertezas naturais
do momento que invade o corpo
e arrebata as certezas.

Caí num abismo em mim mesmo,
já não sei saber quem sou,
muito menos quem és.

O único ensejo é nebuloso;
basta-se no confundir que os olhos alheios
brotam nos peitos conhecidos.

Eu já desisti de sonetos,
cabe a mim agora só fetos,
germes de sinceridade que se encontram
em qualquer lugar:
não desejo uma afirmação de minha individualidade;
o que quero é o descompromisso sólido
que consiste a opinião derradeira:
é preciso fazer o que se quer
e o forjar o querer é preciso.

Voo entre velas
e já não sei onde estou.

Por favor,
ajuda-me.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

EM TODOS OS DESTINOS
O DESTINO ÚNICO
É EU MESMO,
OU SEJA,
NÓS.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

outra das férias

-o indizével - tudo que clama - que coincide-
não temo deixar sombras
sou leão e não preciso negar.

se por desventura o sol a mim sua dádiva recolher
faço de meu peito nascer a luz que acompanha quem comigo vem.
em riste ponho minha lança
à espera das batalhas que invento.
e na calada da fria noite já não há mais escuridão;
a distãncia entre o instante
e as lembranças
basta-se na espessura de minha pálpebras,
e já nada pode não existir.
tudo reluz.
o caminho que está em nossa frente
é semente germinada
na inseparável solidez
de meu corpo mente;
qualquer pedra que se proste em nossa frente,
qualquer peleja que a carne moa sem antecedentes,
ou acolhimento fervoroso
que ventura nos traga:
não escondo dúvidas em cavernas perdidas
ou por nós proibida.

sem lágrimas, insandecidamente lúcido,
sem medos, vícios ou pudores,
te digo,
como um beijo nos olhos
ou como um choro invadido de ternura:
É TUDO INVENÇÃO MINHA.

e voilá curitiba!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Excerto de conto que nunca escrevi

"(...) Subitamente engrossa a minha língua de não caber na boca, e fica pendurada. Transborda saliva espessa, um caldo grudento e mal-cheiroso, que empapa o chão ao redor, me cobre desde os pés e subindo. Logo sou todo essa sopa escrota de baba, repulsiva; falar não é possível, quero me explicar e não consigo. E nem saberia. Mordo a língua com veemência, quantas vezes consigo, e sangro até morrer."

Um gran finale, sem dúvida.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Recolocadas as rodinhas em meus pés (outra no ônibus para campo grande)

trilho agora a senda que me percorre
Às quinze para as sete da manhã tenho
a leste a dourada e incipiente cunhatã;
a oeste o leve e contínuo pôr-da-lua
Tudo é transformação.
O que antes era sombra
agora se faz de cor
Onde antes via mistério
passo, passo-a-passo,
a conceber sem erro
O horizonte nasce em mim
diverso
e eu nasço com ele.
Sinto que agora já não sou
o que era a dez minutos atrás.
Galerias de árvores tortas
(que me lembram corpos que dançam)
e de pinheiros
aves que voam e vertem seus gorjeio
Um tênue matiz a envolve
e prenuncia a queda da lua
Um degradê em constante
mutação
belo, porém sem pudor
nem perdão,
a vinda do sol anuncia.
"Daqui a pouco teremos calor".
Na ausência de uma câmera fotografica
para reter a paisagem irretível
no poema capturo uma imagem,
clara e indefinível,
de meu coração.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Postagem com calor na barriga

o compromisso com as palavras.

as palavras
que vivemos e não sabemos.

as palavras que sabemos
e ainda não vivemos.

palavras que desconhecemos.


Gluck.

Shoshin.



















Auguri.


Ífe.


palavras que pintamos
nas ilhas,
nas vidas,
nas voltas.

Do.











nossas vidas,
palavras.


Kotoba.








silêncio
e homem.

palavra.


旅人
(tabibito)

viajandante,
sempre sempre,
andarilho.

vamos em frente,
vamos em frente.

terça-feira, 14 de julho de 2009

no buzão indo pra campo grande

rodovia de duas mãos

desfigurado vou
a lua em meus pés
sou um lance de dados

com a lua em minha tez
sinto agora o revéz
alto, por longe ter vislumbrado

tudo são sombras
que voláteis passam

vorazes semelhanças
com o odor que escorre
no peito angustiado

comigo não vou só:
a lua me abre
todas as possibilidades

e me faz nada aquém
de névoa ou oceano
ou seja,
atingi meu destino

mesmo que provisoriamente
sou agora
deus de mim mesmo

Postagem com frio na barriga

como se num balanço imenso
ou num salto de asa delta
quem sabe até numa carícia às escondidas
inauguro em mim o estado de incertezas
no qual sempre vivi

entrecaminhos que se postam
reporto a imagens de outrora
para ter certeza do que fui.

penso em escrever um soneto,
algo com estrutura, um sopro feito,
para garantir a sutura
dos pensamentos.

ia dizer custura, teia,
imagem que nasce da crença
na descrença, uma tecelagem de carnes
todas a ponto de prazer ou putrefação.

a linha é tênue.
todas as linhas são tênues,
porque o todo é único e tudo é o mesmo.

não sei onde estás, mas sei
que me ensinastes também
a ser viajante.

preferia dizer viajandante.

nada como um sorriso amigo
que vem ao meu encontro
sempre que carrego no bolso
do rosto
um imenso abraço
gratuito no desembaraço
que constitui as relações humanas.

busco recompensas, talvez uma ilha,
um reino, que há de me bastar.

dando voltas afundo revoltas
e chego a descobrir, na beirada do triz,
o sentido de amar.

ó mar salgado,
quanto do teu sal são lágrimas minhas
que derramei de olhos fechados.

a ilha está na testa,
e o olho está na ilha.

atino, atesto, o olho, a ilha.
daremos a volta
e depois de voltearmos tudo
só nos restará uma possibilidade:
o retorno.

o retorno que não passa,
não escapam eiras nem beiras,
do compromisso que temos para com nossas vidas.

E, aqui, meus amigos, para com as palavras,
que tanto estimamos.

Auguri, Pedruschi.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Postagem às escondidas

Postei-me.
Postei-nos.
E por postar-nos,
comecei-me.
Ser eu novo.
Ser um novo nós.
Seguindo o vôo das araras.
Rasgando as águas dos rios.
Riscando todos os mapas.

Comecei-me.
Por que não começai-vos vocês também?

sigam o caminho que quiserem logo abaixo...

domingo, 5 de julho de 2009

Postagem espontânea

Hoje eu quis fazer uma postagem espontânea.
Me utilizar daquilo que sou
E de tudo o que sopra em mim
Para fazer nascer nas palavras
Algo que não seja de meu conhecimento:
Eu.
Você.
Nós.

Somos um?
Às vezes temo ser tu
E temo que sejas eu

Por quê?
Pois assim minhas suposições não seriam em vão,
não seriam errôneas,
e você (eu?) teria que me (te?) ouvir.

Só há um problema:
O ânimo que já não floresce em meu peito,
e eu, mesmo sabendo o por quê, não sei como lutar.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O poema específico de Rilke (com duas traduções)

A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Geir Campos)


Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo:
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído — e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranqüilas
patas, ao coração, para aí ficar.


domingo, 28 de junho de 2009

POEMA PARA UMA POMBA MUITO BURRA

Eis o mundo animal!
E eu, humano em demasia,
observo a fragilidade da
vida.

Uma pomba,
interessada em literatura
moçambicana,
veio de longe.

Veio de longe
e, de longe,
esqueceu-se que
no mundo humano
existem janelas,
e é preciso
abrí-las para
voar através.

Explode Mabata-bata.
Explode a Pomba Burra.

Assim a chamo
pois sou meio
retardado,
mas não deixo
de sentir compaixão
pelo nobre pássaro
assim tão parecido
com qualquer um de nós
em nossa tão frágil
condição de
vivos.

Um gato magrelo
ganha almoço
prá uma semana.

Eis o mundo animal.

E eu, humano em demasia,
não canso de à vida
observar com poesia.




Poema escrito durante uma aula de introdução à literatura, na unesp de Assis, no dia 09/06/09.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

"INSUPORTÁVEL. O sentimento de um acúmulo de sofrimentos amorosos explode nesse grito: 'Isso não pode continuar' "

"3. Quando passa a exaltação, fico reduzido à mais simples filosofia: a da resistência (dimensão natural dos verdadeiros cansaços). Suporto sem me acomodar, persisto sem me emudecer: sempre perturbado, nunca desencorajado; sou uma boneca Daruma, uma poussah sem pernas em que se dão vários petelecos, mas que finalmente retoma seu prumo, graças a uma quilha interior (mas qual é a minha quilha? A força do amor?) É o que diz um poema popular que acompanha essas bonecas japonesas:

'Assim é a vida
Cair sete vezes
E se levantar oito.' "

Mano do céu, olha que coincidência eu ter lido isso hoje.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Após um poema específico de Rilke.

Um momento fortuito de sol e tigre
A lança dissolve e enlaça o lance que sinto no lince
Que pinça a alma e pulsa o coração.
Pantera que vem ao encontro
É hera que cresce e estrangula,
Já era.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

sans souci

Indiferentemente a tudo, sigo o caminho.
Procuro o caminho.
Construo o caminho.

Meu tempo é agora, porque não é possível conceber o quando.
O cheiro dos dias se sente no fazer ininterrupto,
no cansaço e no prazer.
Prazer capaz de tudo
Prazer que espanta cansaço
E faz do corpo qualquer coisa mágica
- em cópula-

Já escrevi muito em folhas soltas
Agora minha predileção é escrever
Na pele.

Poesia tatuagem,
corro um corpo com dedos leves,
percorro como máquina as letras do teclado,
faço um chá e ouço música meditativa.
Depois de horas a fio que passam sem consciência,
parece que o mundo me olhou pela nuca
e disse:
estou ao seu lado, mas não sou nada.
Então olho no olho da cara do mundo e digo:
estou ao seu lado e não sou nada.

Um ar paralelo sempre está presente,
e me dá vontade de escrever risadas
e pesadelos
e sonhos (graça).

Para esquentar o blog, para convencer-me de tudo que não sei
Contento-me com uma poesia de alguns meses atrás:

No meio da multidão, sozinho,
Invento um corpo de sobrevivência.
Domo meu gênio indomável,
Ou melhor, o afundo
Em meus porões.
Junto com os morcegos
E os ratos.
E tudo cheira lavanda.

domingo, 14 de junho de 2009

Compreender

"Fragmentos de um discurso amoroso" - Roland Barthes

"Que é que eu penso do amor? - Em suma, não penso nada. Bem que eu gostaria de saber o que é, mas estando do lado de dentro, eu o vejo em existência, não em essência. O que quero conhecer (o amor) é exatamente a matéria que uso para falar (o discurso amoroso). A reflexão me é certamente permitida, mas como essa reflexão é logo incluída na sucessão das imagens, ela não se torna nunca reflexividade: excluído da lógica (que supõe linguagens exteriores umas às outras), não posso pretender pensar bem. Do mesmo modo, mesmo que eu discoresse sobre o amor durante um ano, só poderia esperar pegar o conceito "pelo rabo": por flashes, fórmulas, surpresas de expressão, dispersos pelo grande escoamento do Imaginário; estou no mau lugar do amor, que é seu lugar iluminado: 'O lugar mais sombrio, diz um provérbio chinês, é sempre embaixo da lâmpada.' "

essa era boa para ter levado naquela roda literária!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Eddie Vedder - Into the Wild

WE NOW WALK INTO THE WILD


Eis a nossa jornada poética, mergulhando no sonho dos que sonham, personificados na figura de Cristopher McCandless, ou Alexander Supertramp, vivido tão-somente por ele mesmo, historizado por Jon Krakauer, filmificado por Sean Penn, interpretado por Emile Hirsch, musicado e lirizado por Eddie Vedder, cuja obra serviu de matriz e inspiração para que fosse também engolido e regurgitado aqui por nós. Especialíssimas fotos patagônicas por Carolina Paes de Andrade, minha querida irmã andarilha. Cada música foi "poemizada" por um de nós: Pedro Rabello, Pedro Bruschi, João Pupo. Para este feito tínhamos algo em comum: o prazer com as jornadas que percorrem as naturezas selvagens. Aproveitem esse grito.

***

“Setting Forth”
por Pedro Bruschi

Força que percorre:
Faça do grito meu uma espada oca
Que se quebre a cada golpe desferido
E que cada ferido seja invadido
Pelo nada de luz que no oco espaço se escondia.
Continuando, busco planetas inalcançáveis
E as palavras me ajudam.
O indizível é essencial à fala.
Descontinuando, (ou quiçá mergulhado no risco incerto que abre possibilidades, mas angustia)
Vou e volto sobre caminhos já trilhados
Desvendando a infinidade de expressões que se encerram em um mesmo ponto.
Ser. (um pensamento que é massa cinzenta e pôr-do-sol brilhante me corrói)
Ser.
Ser. (a não preocupação é uma conquista à custa de muito esforço ou o oposto?)
Vamos em... qualquer direção.
Porque a frente talvez não esteja adiante.
E nosso juízo nada garante.



“No Ceiling”
por João Pupo













As fronteiras de meu coração se esvaem.
E hoje ainda é de manhã.
Tenho todo um Hemisfério para percorrer
e voltar ainda hoje à noite
para ver a lua brilhar sobre a minha terra.
Se a minha terra é o chão que eu piso,
caminhar para frente é a ida
e a volta de meu percurso diário.

(Guardo essa sabedoria na carne
que envolve meus ossos)


Tão distante (“Far Behind”)
por Pedro Rabello













Sentir tudo ficando tão distante
e não sentir nada!
Sentir uma sede insaciável
do próximo passo!
Sentir o vento no rosto
tal e qual um orgasmo!
Sentir a liberdade se descolando
da palavra e guiando cada ação!

A sociedade
é uma anedota
que me contaram
e eu não achei
a menor graça.



Ascender (“Rise”)
por João Pupo



Não é tempo
o que perco:
perco à mim mesmo
quando quero me mover
mas fico parado,

assim como perco
à mim mesmo
quando quero ficar parado
e me movo.

Eu sempre perderei
à mim mesmo
enquanto insistir em
ruminar erros
do passado.

Gente rapidamente se esvai.
Não desperdiço esta vida.



“Long Nights”
por João Pupo













Hoje eu sinto que tenho uma alma.
Não sei se a terei amanhã.
Mas hoje eu sinto,
por dentro de mim,
por dentro da noite,
que tenho uma alma até
amanhã de manhã.
E sigo minha jornada,
sem medo,
no escuro.



“Tuolumne”
por Pedro Bruschi

O tempo correto corre e constrói
{A espera é um ritornello pálido}
A catarse por vezes se esconde na repetição
e a repetição por vezes se esconde na intenção.
{As definições são clima}
As incertezas são certezas na espera de um porvir qualquer.
Um canto decantado de infindas idas e vindas
descansado da fadiga que míngua e cega a língua.
A fala, incerta mala, que carrega tantas que não sabe.
Quais sensações podem ser despertas?
Quais são as possibilidades?
Eu sei de gama que percorre e ama a cor das promessas.
A lama por que passamos, poesias em roda declama,
Palavra em chama que percorre e engana
A falta de gana que pseudo-corre sobre a in-verde grama
De nossas existências malandras.
Estou lûmine. Ilûmine.
Iluminar a trilha, a senda que finda,
Não míngua o poder que temos,
Mas redebrilha o presente.
E não faz de nós nada que não seja tudo.
Porque o infinito está em nosso peito,
roça e cresce porque deseja
-coça e coça-
formigas irradiantes que buscam a sobrevida.
Maleantes ou não
No estreito extremo extrospectivo
que que possui o direito de existir
Não como como,
Mas como é.
Assim desejamos e corremos no instante brilhante
Que não decifra, mas brinca,
No intervalo entre o correto e o incorreto,
Concreto e in-concreto,
Onde imprecisamente, tudo é mais gostoso.

A festa atesta.
E viva o tesão comprometido
Com a minha e a tua vida.


“Hard Sun”
por Pedro Rabello
era o sol forte
irradiando em mim
era cada poro
vulcão em erupção

era o sal forte
enrijecendo o gosto
era osso quebrando
a qualquer vibração.

vista bonita
de alto de morro
espirro espirrado
fome de almoço certo:

esse é o gostar
que eu quero,
é o querer
que gosto.

Pois
felicidade só
existe
se compartilhada.



“Society”
por Pedro Bruschi

o pouco que buscamos
é muito
se qualidade quantizamos.

Nada é necessário, em última instância.

nessa vida
sempre quero
mais e além

ambição infinita
de tudo alcançar.
E o eterno esforço,
constante.
-auto mutação intencionante-
Por cedo ter descoberto:
quanto menos, mais.

E, no fundo,
uma incoerência:
teu Nada
ser meu Tudo.


“The Wolf”
por João Pupo



















Um canto ancestral percorre
montanhas em meu peito.
Sou todo essa voz
que uiva
ante a sombra que se
deita no pé
da montanha gelada,
e sou eterno.

Não há mais o que duvidar:
Em meu olho brilha
o sorriso do lobo.
Eu não caminho mais sozinho
pela terra.
Tampouco serei o último
à caminhar.




Fim da estrada (“End of the Road”)
por Pedro Rabello

Começo a entender
que o fim da estrada
é a linha que separa
o mundo do não-mundo.

O que é mundo para eles
e o que é mundo para mim
(e para tantos outros...)
O que para eles é temor
E pra mim é motivação.

Onde a lua é mais lua
Onde as horas não se contam
E onde o homem é posto
em seu devido lugar.

Viva McCandless
Viva Thoreau
Viva Hemingway,
Caeiro e todos
os povos da floresta!

A humanidade tentou
em vão
dominar a natureza
se esquecendo
que é parte orgânica
e inseparável dela.



“Guaranteed”
por Pedro Bruschi

O homem busca respirar.
Te parece um arfar de pulmão,
um ribombar de vento que enche velas de caravelas,
dentro de si, um clamor por liberdade?
O homem procura, antes das chaves,
a consciência de que as gavetas existem.
O que há dentro da escarpa facetada, nossas mentes,
que nada escondem mas exigem uma profusão de questões
e ainda um expressar-se, mesmo que inseguro?
Não ser, mas sentir-se.
Essa força saborosa causa deleites formidáveis
nos que já caminham de pé
e se esqueceram do prostar-se ajoelhado e improfícuo.
Atração e repulsão.
Agora seremos todos os lugares,
porque as regras foram engolidas,
as regras se afogaram na ira da enchente incompreendida
no mistério dos iluminares que foram impensados:
Nós.
Eu te compreendo,
com ou sem jeito, o que vale é tua intenção atrevida.
E nesse ir e vir de conhecimentos mútuos
sei que me compreendes e acende em teu peito,
que já não é somente teu, tampouco somente nosso,
a chama da verdade de tua existência.
Concebes, teus pensamentos são puros
e nas corredeiras das infinidades que escorrem pelos encantos de tuas selvas,
encontro um jeito de ser.
E já não somente sou.
Agora estou.
Sem ocultar em mim nada que exista,
proclamo o inexistente, clamo pelo instante,
e sinto orbitando em mim tudo que está por vir.
Indignados, alimentemos nossos exageros característicos,
se assim feito, vos garanto:
nessa senda encontraremos todos os destinos
e eles aceitarão, felizes, a liberdade.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Umberto Eco

"as formas não industriais de comunicação podem tornar-se as formas de uma futura 'guerrilha de comunicação': a contínua correção de perspectivas, a interpretação sempre renovada das mensagens"

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Tempos passados
são ilusão,
escrevo e percebo:
enquanto a caneta se move
no papel,
o pensamento encontra
o coração
e o passado já
não é passado nem futuro nem
presente.
É movimento,
somos movimento,
a palavra, a tinta,
o universo e alguém barbudo
que tenta olhar para o
papel, a janela e o infinito
ao mesmo tempo.

Quando a caneta encontra
o papel,
eu encontro palavras já escritas noutros cadernos,
mas tudo é Uno,
tudo é junto
(nós nunca estivemos separados)
e posso então acrescentar,
visto que não tenho mais a mesma
raiva no coração que tive outrora,
pequenas palavras
num certo verso antigo:

Scripturire
no interior
de meu corpo
interior.

E o Fugere Urben
passa a ser algo externo:
eis a ironia e a aventura
da vida.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

-Seca-

As palavras secaram.
Banhado de incertezas
meu regato consumi até o fim,
sem sequer consultar as belezas
que davam provisão.

Tudo que agora queria
era compartilhar a força cintilante
que não deixa meu amigo terminar o dia.
Quem sabe não seria a poesia
algo que impulsionaria meu pulso
a encontrar o oceano que trago
nas funduras.
Só faltaria a misteriosa força centrípeta
que condenaria todo o pútrefo pântano lodoso,
ao qual não escapa um triz da carne
que carrego nessa carcaça errante
cheia de desastres astrológicos
e pipas concertantes prendadas por crianças inocentes,
à dissolução completa no mar que se esconde
em fragmentos.

Tento chorar na esperança de poder
nas lágrimas me banhar.
É gota a gota que se descobre
o fel da imensidão vazia.
É gota a gota que se sorve o mel
dos colossos invisíveis.

As palavras secaram,
mas basta um olhar mais preciso
para notar que a compreensão nunca se esgota
e que se organizar e divertir nunca é vão.

O mistério da poesia é assim:
natureza errante dos cosmos da memória humana;
acabou a água do mundo,
no entanto,sequer começamos a desvendar os oceanos.
amizade é rama
de flor de abacate
passarinho sem ninho voando
palavra gostosa de ler
e de levar.

traço de traça troncuda,
tracejando trilho de trem;
solzinho mansinho da manhã,
ocaso acaso opaco (poente poento).

uva carnuda, que delícia!
versos matutinos, que bons de ler!
confraternizações imaginárias!
sereno das noites de chuva iminente...

ponho meus sentimentos
pelos amigos em tudo
presto homenagens ontológicas
planto sementes no céu
para que eles colham frutos maduros
e colho também
os que eles plantam.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

vida,
casa encantada.
palavra,
movente morada.
poeta,
pedaço de nada

que se glorifica
ao ser, em cada verso
que edifica,
pulso, passo
que percorre.

pedaço de nada
que a vida intensifica
pois com a vida
morre.
Poesia
Palavra crua.

Sou ser desnudado
Perante o nada.

Baque parado.

Às vezes sinto tanta falta tua
Quanto sucede com minha amada.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Capítulo 7 - O Jôgo da Amarelinha - Julio Cortazar

" Toco sua bôca, com um dedo toco o contôrno da tua bôca, vou desenhando essa bôca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua bôca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a bôca que desejo, a bôca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma bôca eleita entre tôdas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua bôca que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha.
Me olhas, de perto me olhas, cada vez mais perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam entre si, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bôcas encontram-se e lutam dèbilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua entre os dentes, brincando nas suas cavernas onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a bôca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já eciste uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água."

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A palavra verdade

Você vai acordar, num dia frio
Sentir aquele gozo inexplicável
Do mijo quente perpassando a uretra
E, ao dirigir-se ao espelho, como sempre
Dessa vez vai querer quebrá-lo
Acabando assim com a cultura da vaidade.

Mas, num ato de agressividade contida
Que é o verdadeiro significado da palavra elegância
Vai pendurá-lo no ar do lado de fora da janela do banheiro
Desconsiderando assim a lei da gravidade
Que por sua vez, não é verdadeira.

Você vai vestir-se exóticamente
(Pois pelado seria instantaneamente preso):
Chapéu de caçador e tapa-olho de pirata,
Paletó com bolinhas e gravata cor-de-rosa,
Calça boca-de-sino rasgada e sapato furado.
E então vai sair na rua.

Você vai andar e agir estranhamente
Cantar e rir em voz alta
Mostrando indiferença pela opinião dos outros.
Não obstante, vai dar "bom dia" a todos,
Pedir licensa quando for necessário
E ajudar se alguém derrubar algo no chão
Pois você não é juiz da vida alheia, como eles.

Você vai ser negro, mulher, judeu
Homossexual, Sem-terra, cadeirante,
Criança, muçulmano, africano,
Alcoólatra, mendigo, travesti,
Idoso, indígena, drogado,
Pobre, mulato, latino-americano.
Vai ser julgado e condenado a ser julgado
E vai aguentar, fazendo da sua vida uma triste,
[mas linda história.

Você não vai querer impor a sua opinião
[a ninguém.
Mas vai estimular as pessoas a refletirem,
[questionarem,
A não aceitarem verdades prontas.
Você vai às igrejas, aos bancos, às escolas,
aos postos de saúde, shoppings e às
praças públicas.

Você vai debater sobre a justiça das leis,
Sobre o monopólio de interpretação dos textos
["sagrados",
Sobre a idoneidade da história dos vencedores,
Sobra a inquestionalidade da ciência,
Sobre a biologização da medicina,
Sobre a arte pela arte,
Sobre consumo e capitalismo,
Sobre a gritante infelicidade em que vivemos.

E então você vai à prefeitura, à câmara,
ao senado ou ao palácio (quanta pretensão!)
[do governador
Para demonstrar todo o seu desprezo pelos
[burocratas
Gritando palavras de ordem num alto-falante
Entoando canções de liberdade
("Enquanto os homens exercem seus podres
[poderes...")
E cobrando humanidade em seus governos.
Depois vai cobrar de si mesmo que não se
[acomode.

Por fim você, já cansado, sujo e cheirando mal
Vai a um restaurante da alta sociedade
Onde famílias perfeitas estarão jantando
Na mais perfeita harmonia: música ambiente,
Ar condicionado, comida sofisticadíssima
E vai provocar pânico só de entrar no recinto
Fazendo com que mulheres finas percam a posse
[(e se aterrorizem)
Com que pais e filhos mais velhos fechem os punhos
[embaixo das mesas
E crianças com que fiquem... curiosas!

Você vai ignorar os funcionários tentando abafar a situação discretamente vai escolher uma mesa próxima que tenha uma criança e BEIJÁ-LA NO ROSTO antes que venham as mãos que vão puxar segurar e bater e os pés no chão verá o pai da criança (QUE PARECE EM ESTADO DE CHOQUE) cochichar alguma coisa no ouvido do gerente e então será arrastado até a porta dos fundos e será executado.

Como último e derradeiro protesto
Você não estará vivo para ver o seu caso não virar
[notícia na TV e nos jornais
Que você considerava o perfeito exemplo
De como a humanidade ainda não está comprometida
[com a palavra verdade.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

sobre essa pedra edificarei

Tu és Pedro ou Simão?

Ó príncipe dos que crêem no poder da palavra!


A palavra é mais poderosa e projétil que o pensamento.


Ela dizcrve e propaga o que antes era lâmpada acesa dentro da cabeça i d é i a

Um sentir que sempre pode se revelar.


E se tu és Pedro não temas a Pedra que há em teu peito

Pois ela é

ostra, ou ainda, astro

a tua substancia essencial oh

Eixo Igreja

pé perna bacia coluna crânio coluna bacia perna pé osso

fóssil

fasquia


Eu ia dizer tronco.


Izcrvo com a licença dos meninos

Palavras silenciosas psiu

faz silêncio no meu coração


o meu silêncio

é izcrver desde muito pequena. Núscula.


Palavras....no calor da cama

ainda quentes e sonadas

vão acordando

e ainda assim quietinhas vou falando bem baixinho

acordem, acordem,

os meninos estão esperando!


terça-feira, 12 de maio de 2009

Nessa grandiosa conexão campo grande-são paulo-assis-universo, ganhamos (se é que algo se ganha nessa vida) um novo colaborador, ou melhor, colaboradora. Minha tia Ana Cláudia, a melhor fisioterapeuta de são paulo, agitadora de danças e bagunças nas ocasiões familiares (ela adora esses sambas agitados em tom maior), o que sempre levanta o ânimo, não se contentou com comentários e pediu para colaborar com o blog.

Nesse sentido segui as belas palavras do Pepo:

"Nessa utopia errante,
Quem for amigo, pode chegar.
Pois os momentos despendidos aqui
São de reconciliação com a vida."

Tudo que é poesia é bem vindo aqui. E para saudar essa "boa vinda" (govinda?), deixo duas parábolas do filósofo libanês Mikhail Naimy, só porque é boom pensar:

"Se os reis se virassem de cabeça para baixo, as coroas seriam sapatos e os sapatos coroas."

"No dia em que emprestares uma libra a teu vizinho, sentindo que és o devedor e ele, o credor, nesse dia começará tua vida como homem."

Saudades, sempre.

Ana, que seu sopro venha somar nessas falsas distâncias e nos ajude a expandir esse vento geral que se esconde dentro da gente.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Sabiá com trevas.

POETA - s. m. e f.

Indivíduo que enxerga a semente germinar
e engole céu
Espécie de vasadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos
como um rosto
(Glossário de transnominações em que não
se explicam algumas delas (nenhumas) -ou menos)

- Manoel de Barros -


eis.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Aos amigos

Queridões Pepolosan, Mumamilo e Jony(dioni)síaco:

Caralho, vocês fizeram puta falta na virada cultural. Em grandes momentos ficava pensando "nossa, imagina se não sei quem estivesse aqui!", e "esse não sei quem" várias vezes era um "não sei quem" falsamente distanciado. Depois preciso contar sobre a TV Aberta, de repente a gente pode fazer uma aglutinação de trabalhos paulistas, interioranos e campo grandenses e ficar famosos no mundo inteiro, quiça intergalacticamente!

Mas eu não entrei aqui somente com um propósito nostálgico. Entrei também com uma proposta um tanto ousada e evidentemente complexa se observada a fundo. É o seguinte: tem um prêmio de poesias nesse site http://www.talentos.wiki.br/pagina.php?Tipo=2 e os três primeiros colocados ganham uma boa milhafa de reais. O detalhe é que eu confio universalmente na gente e tenho certeza que a gente ganha. Eu quero propor para vocês que nós participemos os quatro (viu muma?) e que se houver um ganhador nós guardemos essa grana como nosso dinheiro, um dinheiro comunitário que será usado para fazermos algo realmente foda que seja de total acordo entre nós. Um evento, de repente. Um encontro, de repente. Um ateio de fogo nas notas no meio da av paulista, de repente. Uma doação, de repente. Uma festa, de repente. Uma esbórnia, de repente. Uma VIAGEM, de repente. Ou melhor, uma viagem completa, tudo o que fazemos são viagens! Ou então a gente poderia gastar tudo em álcool e drogas e ficar de boa.

Se vocês acharem meio tenso a gente pode pensar em lance de porcentagens, por exemplo: eu ganhei o prêmio então fico com 50 por cento e o resto fica para nós. Mas sei lá, se pá eu prefiro o lance desse desapego individual e um apego na nossa pseudo-comunidade blogástica - parceria de fascinação ; fasceria de parcinação. É foda, vamos pensar, não temos muito tempo!

Que tal?

Abraços sempre saudosos,
do eterno Pedruschi.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Uma postagem bêbada às 04:10

Acontece que do tempo nós temos o instante.
Efêmero e insolúvel, brilha atordoante
No eterno que nos cerca.

O acontecimento encerra
dentre o devir de instante
e o entrevir momentâneo

o inferno que cerca os
umbigos errantes.

As certezas são infernais,
preferia não tê-las,
mas a realidade bate em minha porta
e eu já não sei mais não amar.


Está tudo bem, fora a clareza
das certezas amargamente ocultas,
e não sei nada além.

Como amar?

Pergunta fulha da puta,
Faça-me ao menos divertir
e estontear.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Espontâneo, mas nem tanto

Esta noite
Não vou dormir
Enquanto
Não escrever uma
Poesia.

Que força é essa
Que não me deixa
Terminar o dia?

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O tempo todo vejo matéria poética de todo tipo se revelando diante dos meus olhos e dos outros sentidos e não faço nada só esperando o meu devir poético se manifestar também.

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Hum.. Eu não pedi autorização pra ele, mas acho que vocês devem ler os contos do Tunico. São bons de lascar. É no http://escritosdoacaso.blogspot.com/. Se der deixa o link no corpo do blog, Druschi!

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Os dois textos em itálico eu escrevi ontem a noite. Eles entram parcialmente em choque com o que eu gostaria de propor a vocês, visto que exaltam a espontaneidade da poesia. Quero lançar um desafio e saber se vocês topam: que a gente escreva releituras poéticas de discos que nós todos gostamos. Cada um pegaria algumas músicas, e por fim juntaríamos o álbum mastigado, engolido e vomitado no blog. Ah, os títulos das músicas permanecerão nos poemas. Daí, em torno do que a temática da letra propõe, acontece a viagem à maneira e de acordo com as vivências, experiências, e opiniões de cada um. No caso de músicas instrumentais, vai no feeling!
Acho que propor temas tira parcialmente a espontaneidade, mas também acho que podem e vão sair coisas bem legais dessa proposta, se vocês gostarem. Um porque isso vai incitar a nossa reflexão em torno dessas temáticas que as músicas propõem, e outro porque vai pôr a prova (e aprimorar) a nossa capacidade de discorrer sobre essas diversas temáticas.
Eu pensei em dois álbuns pra começar o desafio. Um deles é o Into the Wild, do Eddie Vedder, obviamente, e o outro é o Dark Side of the Moon, do Pink Floyd.
E aí, o que acham?

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Muma?

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Tô indo pra Corumbá amanhã, compañeros. Deixo vocês com essa pulga atrás da orelha e volto domingo. Hasta!

terça-feira, 28 de abril de 2009

.

mas este ser
que anda pela casa
da braços cruzados
e pés gelados,
este ser
incompleto e nu
por dentro de vestes brancas
anda pela casa como o monstro
anda em seu labirinto.
faminto e entediado.

e desacontecido.
espera a chegada de
alguém impossível.
espera a partida
para um lugar impossível.

ESTE SER NÃO SOU EU.

(continua...)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Kafka

"Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez o seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo. Algo que existe em seu íntimo. Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar e corajosamente pôr um pé dentro dela, tapar olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado. É muito provavel que lá dentro não haja sol, nem lua, nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa. O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como osso moído dançando vertiginosamente no espaço. Imagine uma tempestade de areia desse jeito."

Nesse exato instante termino a leitura do livro "Kafka à beira mar" do Haruki Murakami.
Sem titubear me tornei para esse espaço que me assegura um canto de alma que desconheço, mas reconheço em prazer e divergencias que fazem parte das consistências da existência.
Enfim, acabo de atravessar uma tempestade de areia, e recomendo a vocês meus bróders essa leitura absolutamente fantástica que é a viagem pelo mundo de um garoto de 15 anos que está à procura de.
"Quando meu décimo quinto aniversário chegar, sairei de minha casa e irei para uma cidade distante e desconhecida, onde vou viver numa pequena biblioteca".
Abraços, Pedruschi.

Procura

Tenho algo a dizer a vocês.
Eu estou à procura
À procura de um mapa
Eu preciso desse mapa
Mas no escuro sei
Que essa mapa não existe
Em si como mapa
Ele existe como corvo
E eu preciso achar um corvo
Um corvo que no torpor eu sei
Não existe em si
Como corvo
Existe como caminho
Que eu vou trilhar
No mapa incerto que distingue
Um mundo sem cor e sem ar
Que sou eu.
Um mapa um corvo um caminho.
Um dia vou me achar.

Miniconto sem título.

O parco barulho de um carro que passa não oculta o click do grilo e do relógio.
Migalhas de músicas que um dia eu ouvi não mais alimentam meu sentimento.
Meus pés nunca me pareceram tão distantes, mas eu ainda consigo enxergar além.
E o que vejo é um meio rosto que também me vê, estampado num espelho esquecido na sombra.
Por ora não quero ser nada além de um silêncio que respira, pausa de semibreve na colcheia da vida.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Nossa Santíssima Trindade

Enivrez-vous

Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront: "Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise."

Embriague-se

É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: "É hora de embriagar-se! Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser".

Charles Baudelaire (Trad. Jorge Pontual)