os momentos despendidos aqui são de reconciliação com a vida

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A palavra verdade

Você vai acordar, num dia frio
Sentir aquele gozo inexplicável
Do mijo quente perpassando a uretra
E, ao dirigir-se ao espelho, como sempre
Dessa vez vai querer quebrá-lo
Acabando assim com a cultura da vaidade.

Mas, num ato de agressividade contida
Que é o verdadeiro significado da palavra elegância
Vai pendurá-lo no ar do lado de fora da janela do banheiro
Desconsiderando assim a lei da gravidade
Que por sua vez, não é verdadeira.

Você vai vestir-se exóticamente
(Pois pelado seria instantaneamente preso):
Chapéu de caçador e tapa-olho de pirata,
Paletó com bolinhas e gravata cor-de-rosa,
Calça boca-de-sino rasgada e sapato furado.
E então vai sair na rua.

Você vai andar e agir estranhamente
Cantar e rir em voz alta
Mostrando indiferença pela opinião dos outros.
Não obstante, vai dar "bom dia" a todos,
Pedir licensa quando for necessário
E ajudar se alguém derrubar algo no chão
Pois você não é juiz da vida alheia, como eles.

Você vai ser negro, mulher, judeu
Homossexual, Sem-terra, cadeirante,
Criança, muçulmano, africano,
Alcoólatra, mendigo, travesti,
Idoso, indígena, drogado,
Pobre, mulato, latino-americano.
Vai ser julgado e condenado a ser julgado
E vai aguentar, fazendo da sua vida uma triste,
[mas linda história.

Você não vai querer impor a sua opinião
[a ninguém.
Mas vai estimular as pessoas a refletirem,
[questionarem,
A não aceitarem verdades prontas.
Você vai às igrejas, aos bancos, às escolas,
aos postos de saúde, shoppings e às
praças públicas.

Você vai debater sobre a justiça das leis,
Sobre o monopólio de interpretação dos textos
["sagrados",
Sobre a idoneidade da história dos vencedores,
Sobra a inquestionalidade da ciência,
Sobre a biologização da medicina,
Sobre a arte pela arte,
Sobre consumo e capitalismo,
Sobre a gritante infelicidade em que vivemos.

E então você vai à prefeitura, à câmara,
ao senado ou ao palácio (quanta pretensão!)
[do governador
Para demonstrar todo o seu desprezo pelos
[burocratas
Gritando palavras de ordem num alto-falante
Entoando canções de liberdade
("Enquanto os homens exercem seus podres
[poderes...")
E cobrando humanidade em seus governos.
Depois vai cobrar de si mesmo que não se
[acomode.

Por fim você, já cansado, sujo e cheirando mal
Vai a um restaurante da alta sociedade
Onde famílias perfeitas estarão jantando
Na mais perfeita harmonia: música ambiente,
Ar condicionado, comida sofisticadíssima
E vai provocar pânico só de entrar no recinto
Fazendo com que mulheres finas percam a posse
[(e se aterrorizem)
Com que pais e filhos mais velhos fechem os punhos
[embaixo das mesas
E crianças com que fiquem... curiosas!

Você vai ignorar os funcionários tentando abafar a situação discretamente vai escolher uma mesa próxima que tenha uma criança e BEIJÁ-LA NO ROSTO antes que venham as mãos que vão puxar segurar e bater e os pés no chão verá o pai da criança (QUE PARECE EM ESTADO DE CHOQUE) cochichar alguma coisa no ouvido do gerente e então será arrastado até a porta dos fundos e será executado.

Como último e derradeiro protesto
Você não estará vivo para ver o seu caso não virar
[notícia na TV e nos jornais
Que você considerava o perfeito exemplo
De como a humanidade ainda não está comprometida
[com a palavra verdade.

2 comentários:

  1. muito bom, Pepo. Adorei o texto. um beijo da seguidora Ana Lucia

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  2. Curti muito Pepão, muito dahora mano!

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