os momentos despendidos aqui são de reconciliação com a vida
domingo, 17 de fevereiro de 2013
"SONO TABS"
desperto
dispersa pensamentos
dispara inquietudes
maneja a argila de sonhos
da matéria bruta
sua beleza escuta
e amassa
com suas próprias mãos
a realidade
seus afetos
suas indisciplinas
clama sua responsabilidade
sobre o imprevisível
falha
de sua boca brotam tristezas úmidas
quase engasga com tudo que perde
seus poros se abrem
agora é todo ventosas
tentáculos que alicerçam
que absorvem
que chupam
que se banham
em chamas
em angústias
quer dar forma às coisas
sem deixar que se apodreçam
os usos
canta desvarios
e eles pulam pelo mundo
como um bando de macacos recém-nascidos
sempre em bando
os desvarios
desacata suas próprias leis
e sofre
por destruir suas próprias obras
caminha por florestas úmidas
colhe das árvores absurdos
e se banha com o óleo viscoso
que regurgita com seus arrependimentos
inventa admirações e desprezos
deseja sentimentos
planta todos restos
todo o lixo para dentro de casa
todos os nojos pra o corpo
guarda inutilidades
tem carinho por absurdos
caberia o mundo em seu armário
se o mundo se deixasse caber
no seu armário
ou se não existisse armário
nunca seleciona as sementes
todas estão no armário
é só abrir a gaveta e de lá transbordam
oceanos de lama
no qual se banha
se lama
sê lama
se ama
pinta seus alvos dentes com a lama fria
e sente prazer nisso
e sente desprazer nisso
destoa
acaricia a longa barba
de sua mulher
e descobre
ama ser desprezado
enfia seu focinho no travesseiro
germina lágrimas como num mudário
cada muda de mudez
espera
tem espera
tem esperança
torna visível o que não diz
constrói
tece com longas agulhas dolorosas
seus pensamentos
e eles tomam forma
mói a teia e passa
na cafeteira
acredita que seu sonho despertara
e faz
cafés cafés cafés cafés
cafés cafés cafés cafés
cafés cafés cafés cafés
cafés cafés cafés cafés
cafés cafés cafés cafés
cafés cafés cafés cafés
até que o café deixe de ser café
e se torne qualquer coisa
nova
faz o mesmo com cafunés e outros
detalhes
guarda todo seu passado num potinho
-o menor possível deles-
e solta em alto mar
esvazia uma cápsula e nela insere
tudo o que não inventou
toma antes de dormir.
Sono Tabs.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
caminhava sobre o lodo
ruminava sobre o todo
que seu estômago englutia
tinha imensidões sobre o papel
e tentava inutilmente
desmentir suas desverdades
nos limites imperdoáveis do branco
tropeça, quase cai,
de boca toca a lama, toma cores,
deságua e leva vela derretida
multifacetada
o chão lhe pergunta:
que te carrega?
ao que responde:
a solidão é a espinha dorsal da abstração humana.
e o chão:
ossos, cartilagens, medulas, nervos, isso não são abstrações, isso são tal o tao.
e o homem:
tens razão, mas qual o uso de tudo isso? com isso se dança, sómente se dança, nada mais, e dança é abstração.
e o chão:
dança não é abstração.
e o corpo:
corpo é abstração.
e o poema:
calma lá, você não pode sair assim sem mais nem menos assustando todo mundo que cruza teu caminho.
e a poesia:
pode.
ruminava sobre o todo
que seu estômago englutia
tinha imensidões sobre o papel
e tentava inutilmente
desmentir suas desverdades
nos limites imperdoáveis do branco
tropeça, quase cai,
de boca toca a lama, toma cores,
deságua e leva vela derretida
multifacetada
o chão lhe pergunta:
que te carrega?
ao que responde:
a solidão é a espinha dorsal da abstração humana.
e o chão:
ossos, cartilagens, medulas, nervos, isso não são abstrações, isso são tal o tao.
e o homem:
tens razão, mas qual o uso de tudo isso? com isso se dança, sómente se dança, nada mais, e dança é abstração.
e o chão:
dança não é abstração.
e o corpo:
corpo é abstração.
e o poema:
calma lá, você não pode sair assim sem mais nem menos assustando todo mundo que cruza teu caminho.
e a poesia:
pode.
sábado, 19 de janeiro de 2013
pequeno texto sobre criação
dizem que toda arte é produzida com 1% de inspiração e 99%
de transpiração.
pois bem.
sempre tive minhas tretas com isso. talvez por achar que
inspiração é muito maior do que esse 1%. talvez por pensar que esse papo é de
quem não tem realmente inspiração.
hoje a coisa é diferente.
vejo que inspiração é
de fato algo passageiro. mas não dá pra medir a proporção, nem comparar com a
tal da transpiração. não acredito que nenhum desses elementos sejam mensuráveis,
e também não gosto da ideia que essa proporção, de 1 pra 99, pode acabar
passando – de que a inspiração é uma coisa boba, e que o que importa mesmo é a
labuta do artista para ser bom.
inspiração é algo que ocorre, toma conta, sacode, arrepia e
vai embora. vai embora mesmo. volta outro dia, de outro jeito, sobre outra
coisa, com outras cores. falando outra língua. é quando algo de dentro da gente
de repente se junta com algo que acontece do lado de fora, e esse encontro produz
uma sensação diferente do habitual.
talvez a transpiração seja o conseguir dar conta desse
momento sem tempo em que algo de dentro se sacode, em que os olhos enxergam
diferente. dar conta, prestar muita atenção, e deixar ele passar, para
trabalhar então com a memória, com a sensação que ele deixou.
talvez essa seja a transpiração, porque realmente não é
fácil. emburacar na memória, buscando um rastro do relâmpago que passou, do
vento que sacudiu as folhas da árvore, diferente do vento que as sacode agora.
e cutucar a memória, recheada de afetos, não é algo simples. pelo menos não
para mim. os caminhos vão se abrindo, e não dá pra controlar muito pra onde o
coração vai.
a transpiração acontece pelo esforço de saber separar as
coisas. porque às vezes certas portas se abrem, e algumas lembranças saem,
trazendo seus cheiros, seus sons, seus medos e suas coragens. e a canseira que
dá é a de decidir se essa ou aquela porta é melhor para o momento, para o que
se quer criar.
hoje entendo criação como isso: mergulhar em si, buscar
combustível na memória que case com a inspiração que bateu. e disso fazer algo
novo, que valha a pena ser dito, ser expresso. que seja verdadeiro, honesto –
resultado desse mergulho, dessa entrega para mais de uma coisa ao mesmo tempo: você
mesmo, a memória, a inspiração, o ponto de interrogação que sabe que algo novo
pode ser feito, ou algo velho, mas de um novo jeito.
é dessa relação e desse comprometimento, que pode ser mais
ou menos excludente e intenso, é dessa aventura que se dá a transpiração. esse
é o trampo, a treta do artista.
de fato, é preciso coragem. muita, muita coragem.
domingo, 23 de dezembro de 2012
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
o poema calado borda reticências
a mulher veste incertezas,
provoca.
e sobra pouco
sorrisos, olhares.
não me diga de cabelos,
estão para próximas.
pequenos animais restam na noite,
rastejam,
remoem,
ruminam.
todos vacas à procura do leite,
da teta,
do que move o que não se sabe.
todos bois querendo o chifre,
o que sobra do deleite,
do gesto.
o resto do gosto.
que faz brotar poema.
no fundo é só o que funda.
a mulher veste incertezas,
provoca.
e sobra pouco
sorrisos, olhares.
não me diga de cabelos,
estão para próximas.
pequenos animais restam na noite,
rastejam,
remoem,
ruminam.
todos vacas à procura do leite,
da teta,
do que move o que não se sabe.
todos bois querendo o chifre,
o que sobra do deleite,
do gesto.
o resto do gosto.
que faz brotar poema.
no fundo é só o que funda.
sábado, 1 de dezembro de 2012
noite
cada qual cuida de si próprio
embebidos em suas disfunções
cumprem suas funções
e calam suas angústias
acorde menor
lá menor
ando já como nunca andei
sozinho carrego o peso de nada ter comigo
sozinho carrego o peso de estar sozinho
dói menor
o ponto que é como cisto
que come carne
que range no poema
si menor
está meu discernimento
pouco cala o que consinto
e desejo
fá, fé
menor
o mundo anda
descalço
sem saber por onde ir
cada qual cuida de si próprio
embebidos em suas disfunções
cumprem suas funções
e calam suas angústias
acorde menor
lá menor
ando já como nunca andei
sozinho carrego o peso de nada ter comigo
sozinho carrego o peso de estar sozinho
dói menor
o ponto que é como cisto
que come carne
que range no poema
si menor
está meu discernimento
pouco cala o que consinto
e desejo
fá, fé
menor
o mundo anda
descalço
sem saber por onde ir
domingo, 18 de novembro de 2012
Fita-Poema
canta em mim
algo que te deseja
um movimento de minhas mãos
na selva imaginada
de teus longos cabelos lisos
ou uma simples confirmação
da beleza que imagino que tua face emane
já não sei
se vejo ou se invento
se vejo a luz do objeto direto
ou se dependo do indireto
para suportar tudo aquilo que não vivi
nunca houve o que me expurgasse
de meus sentimentos
mas teu silêncio me faz lento
e as barbas observo
profeta de minhas desgraças
sofrendo em cada tropeço
maldizendo dúvidas e louvando o imprevisível
aprendo com o pouco como o mudo é comum
e o grito está mais próximo do silêncio que da bandeira
e como minha flama se sufoca no discurso
e sobra no olhar
chama brasa ardendo clama o que não pude
não posso
chama que o medo apaga e deixa brasa
sofrendo nas infinitas camadas de insuficiências
grito para ver se acorda o ímpeto
o eu profundo e originário
do medroso e aflito que depende de menos que um sim
para derreter
grito para ver se te acordo e se sorris para mim
grito para te acordar para o pouco que posso te dar
nesse turbilhão de tantas poucas coisas que posso entender
verto ausências
descorporeidades exalam desejos
firmam quenturas
e os sexos ficam incipientes
cada desacontecimento constrói o corpo
na mesma proporção que o espaço livre molda o poema
um traço desajustado deseja uma meta:
que a palavra alcance mares nunca navegados
que a palavra alcance o céu e o chão
a palavra se faz e inventa a meta
metade do passado
que não passou
uma flor se esconde no bolso do passante
espera o instante de saltar para os olhos da bela dama
que esconde seus olhares como quem esconde suas jóias de ladrões
a flor espera que o grito salte e agarre
o desejo do corpo efêmero, incipiente e provisório
corpo ausente imaginado
corpo sozinho no frio que nasce dos corações gelados
que despisado desaprendeu o toque do amar
algo que te deseja
um movimento de minhas mãos
na selva imaginada
de teus longos cabelos lisos
ou uma simples confirmação
da beleza que imagino que tua face emane
já não sei
se vejo ou se invento
se vejo a luz do objeto direto
ou se dependo do indireto
para suportar tudo aquilo que não vivi
nunca houve o que me expurgasse
de meus sentimentos
mas teu silêncio me faz lento
e as barbas observo
profeta de minhas desgraças
sofrendo em cada tropeço
maldizendo dúvidas e louvando o imprevisível
aprendo com o pouco como o mudo é comum
e o grito está mais próximo do silêncio que da bandeira
e como minha flama se sufoca no discurso
e sobra no olhar
chama brasa ardendo clama o que não pude
não posso
chama que o medo apaga e deixa brasa
sofrendo nas infinitas camadas de insuficiências
grito para ver se acorda o ímpeto
o eu profundo e originário
do medroso e aflito que depende de menos que um sim
para derreter
grito para ver se te acordo e se sorris para mim
grito para te acordar para o pouco que posso te dar
nesse turbilhão de tantas poucas coisas que posso entender
verto ausências
descorporeidades exalam desejos
firmam quenturas
e os sexos ficam incipientes
cada desacontecimento constrói o corpo
na mesma proporção que o espaço livre molda o poema
um traço desajustado deseja uma meta:
que a palavra alcance mares nunca navegados
que a palavra alcance o céu e o chão
a palavra se faz e inventa a meta
metade do passado
que não passou
uma flor se esconde no bolso do passante
espera o instante de saltar para os olhos da bela dama
que esconde seus olhares como quem esconde suas jóias de ladrões
a flor espera que o grito salte e agarre
o desejo do corpo efêmero, incipiente e provisório
corpo ausente imaginado
corpo sozinho no frio que nasce dos corações gelados
que despisado desaprendeu o toque do amar
Assinar:
Postagens (Atom)