os momentos despendidos aqui são de reconciliação com a vida

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Impressões de Roma

Roma
atemporal Roma, desterritorializada.
Roma das mil línguas, das mil cúpulas
dos gatos das pombas das gaivotas.
Roma em obras, reformando antiguidades; andaimes tecnológicos que não encostam na pedra esculpida há séculos atrás.
Roma do passado intangível, história materializada na rocha, Roma
tão pequena e tão grande Roma
inexplicável Roma

comum, ordinária... calor, pernas à mostra

Roma do turismo, da multidão amorfa
que caminha
que aluga
que gasta
que compra
que come
que não te conhece

Roma da contemplação, da amplidão urbana
modernidade torta, esquisita

Roma das estátuas que tanto dizem, da água de suas fontes
sinos de igrejas atravessando seu território

Roma das muralhas, dos pequenos caminhos,
das mulheres, dos desejos, das imaginações,
dos loucos e das loucas
dos jovens e dos velhos, tão romanos!

tão rica e tão pobre

Roma, dos pequenos caminhos, dos romanos e das romanas,
do Pink Floyd na calçada, pebolins e ping-pongs na beira do rio, teu grandioso rio,
Roma do Trastevere e suas pontes.

Roma tão apaixonada e apaixonante que às vezes beira o ridículo.

Roma que me recebeu com sol e agora se despede com tempestade,
cidade ciumenta, cidade à flor da pele que exala o sonoro italiano
por todos os poros...
giornata .buangiorno.
por todas as vias, praças, vícolos...
spaguetti. artigianale.

Confesso que não entendi muito de sua vida, tampouco de sua sabida história.
Contudo, entendi um tanto da natureza de tuas Pedras.

Arrivederci!

segunda-feira, 28 de julho de 2014

enchi a cara

enchi o saco

com saudades de casa

mas sequer sei

o que é minha casa

enchi o saco

de viver

de escrever

de comer

de beber

de andar

de acordar

de dormir

Minha vontade é de trepar

com a palavra

segunda-feira, 2 de junho de 2014

pensamentos dispersos

essa náusea angustiante quando está se fazendo milhares de coisas e com a sensação de não estar fazendo nada

ensinar não se ensina nada. ensinar é mostrar ao outro como se despertou aquele fogo dentro de si, ao ver esse fogo o indivíduo que o tem dentro começa a perceber como ele pode despertar seu fogo


terça-feira, 27 de maio de 2014

POUSADA PRIMAVERA

uma flor
no escuro
me pergunta
como é ela flor
sem a luz do dia;
logo então a capturo
e no broto-imagem vejo
aquele pouco de passado
e um pouco tanto de futuro;
por isso decidi que já não durmo
e saio brindando as cores da noite.

domingo, 25 de maio de 2014

domingo, 11 de maio de 2014

Poema para Max e os Felinos

Poema para Max e os Felinos

Numa manhã me alimento
de vidas jovens
que logo se tornam maduras
e então velhas
vidas humanas
vidas felinas
que também nelas habitam.

Numa manhã, às gotas
de meu suor descendo a
pele
avisto e sinto
em minha vida, entrejovem ainda
também felinos,
ronronantes, guinchantes
quietos e temerosos.

Aguardo o bote
com curiosidade,
imaginando a direção
a qual irão atacar.
O brilho do olho de minha vida
reluz
como o daquele jaguar.

*

"Max e os Felinos" é um livro de Moacyr Scliar, lançado em 1981.
Foi oficialmente reconhecido como a inspiração para o livro "A vida de Pi", de Yann Martel, que depois foi adaptado para o cinema com título homônimo.
Eu vi o filme em 2012, e, ao saber da inspiração nessa história de um autor brasileiro, fui atrás do livro de Scliar. Li-o em um dia, em janeiro deste ano, e gostei muito.
Dessa leitura relâmpago numa tarde quente de verão brasileiro, pulou um poema.
Reli o poema esses dias e fiquei afim de publicá-lo aqui, e fazer-lhes a seguinte pergunta: Vocês já escreveram algum poema em homenagem a algum filme/livro? Ou até mesmo, em homenagem a algum outro poema?

domingo, 4 de maio de 2014

O ERRO (poema para um objeto inanimado)

nos subterrâneos do cotidiano, algo escuso dava errado.
se esquivava o erro a cada tropeço que pudesse levar a encontrá-lo.
se escondia atrás de seus pares semelhantes, porém nunca iguais.
somente no momento em que despertou sua especifidade no desejo alheio, o erro, transbordou.
e foram tantos sentimentos simultâneos que o erro pareceu semelhante a uma gargalhada.
e o erro ria e ria.
e que erro era!, daqueles grandes que tinham corpo, matéria, som.
aquele erro tinha muita história de acerto.
peso de passado.
aquele erro já tinha sido carregado nas costas, de lado, dentro do carro, sobre a cabeça, na bicicleta.
sua especialidade era ficar no colo, e quando estava no colo, o erro cantava, sempre cantava.
e nunca tinha sido erro.
o erro já tinha viajado, sido emprestado.
baita erro cheio de experiências!, desconfio que ele, inanimado, até tenha amado.
sido amado sim, tinha sido muito amado, por tantos dedos que tangiam com cuidado o agora erro, desaparecido.
o que transformou o algo que era no atual erro errado, sumido, despetalado, sem pernas, apoios, cotovelos, ombros, esqueleto?
o erro foi desaparecer.
mas o que desaparece se encontra.
procuro o erro para dele fazer surgir algo, torto que seja, mesmo que continue errado, mas cheio de vida e presença.