os momentos despendidos aqui são de reconciliação com a vida

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Rumo

"Somente sou quando em verso.

Minhas faces mais diversas
são labirintos antigos
que me confundem e perdem.

Meu pensamento perfura
muros de nada, à procura
do que não fui nem serei.

Ante a carne fêmea e branca
meu corpo se recompõe
ofertando o que não sou.

Meu caminhar e meus gestos
mal e apenas anunciam
minha ainda permanência.

Para chegar até onde
não me presumo, mas sou,
sigo em forma de palavra."

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe... Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto...
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma."

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Valor

A totalidade é essencial
à satisfação.

Àquilo que atribuís valor
atribua a certeza da complementariade
com a totalidade da diversidade.

Tudo são quebra-cabeças,
milhões de peças.

Cada qual terá o melhor
dentro daquilo que deseja.

A conquista dos prazeres,
compartilhados,
é sinonimo de....................... .

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Também de improviso

cheiro-verde
plantado colhido
picado
deixa na mão
cheiro-verde.

o nome
sinestésico
faz pensar se
veio antes a cor
ou o cheiro.

pouca diferença
faz.

raras são as
coisas
no mundo
tão idôneas
quanto
cheiro-verde.

domingo, 6 de setembro de 2009

improviso antes de dormir

a pipa pousada


asdrúbal tinha ido brincar com os meninos do bairro
e descobriu que todos não eram eles mais.

as pipas pisadas no chão eram motivo de riso e alegria
mas o garoto não se conformava com pipa perto do chão.

o gôsto estava no gesto, o pouso que a pipa partida
fazia
depois do corte vitorioso.
vento que gira não manda sozinho, alguém tem que ter
na ponta do fio, pra dizer que vai ou não vai
pra cima ou pra trás.

sempre alguém tem que ter
a mais
pra que quem se sabe aqui com a pipa a seus pés
se saiba que pode
voar sem stress
no mar da linguagem, na vida ou na imagem.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

reflexão sobre educação (e tantas outras coisas que me atormentam)

certa hora parei a reflexão e considerei que não poderia ser educador
pois como prerrogativa o educador deveria em si
ter plena felicidade.
no entanto, percebi que por ter compreendido,
mesmo não a tendo, sou capaz e por isso tenho
outras ótimas possibilidades.
mas acabo por achar que preferiria simples felicidade, contudo
não consigo vislumbrar um único feixe de luz
que ajude-me, na névoa caótica
de minha cabeça,
descobrir um nada de felicidade.
não posso estabelecer conexões entre as coisas
e tudo está ligado a tudo.
essa bruma me cega, e nada distinguo.
paisagens, pensamentos, figuras, posturas, objetos, pessoas, cores, sentires, fazeres,
nada é em si, tudo é sombra e não vejo fronteiras
entre bem e mal;
entre sim e não.
não acredito em nada pois nada é:
e penso sobre minhas palavras
e elas tampouco são...
estou grávido do caos
nasce em mim compulsivamente tudo que se anula
e já não sei conceber vida ou morte;
não sei conceber o real e o irreal:
os prazeres morrem logo após o parto.
esqueci-me da existência
e nada sei de absolutamente nada,
tudo é só mente,
mentira.
"O melhor será escolher o caminho de galta, percorrê-lo de novo (inventá-lo à medida que o percorro) e sem perceber, quase insensivelmente, ir até o fim - sem me preocupar em saber o que quer dizer 'ir até o fim', nem o que eu quis dizer ao escrever essa frase. Quando caminhava pela vereda de Galta, já longe da estrada, passada a região das bânias e dos charcos de águas paradas, e ultrapassando o Pórtico em ruínas, entrando na pequena praça de casas desmoronadas, precisamente no começo da minha longa caminhada, não sabia aonde ia nem me preocupava em sabê-lo. Não me fazia perguntas: caminhava, apenas caminhava sem rumo certo. Ia ao encontro... ao encontro de quê? Até então não sabia e nem o sei agora. Talvez por isso escrevi 'ir até o fim': para sabê-lo, para saber o que há atrás do fim. Uma armadilha verbal: depois do fim não há nada, pois, se algo houvesse, o fim não seria fim. E no entanto, sempre caminhamos ao encontro de..."